domingo, 30 de outubro de 2011

maldito tornozelo.

acordei, mas não queria abrir os olhos.
estava cansado.
mais cansado do que o habitual.
meu corpo doía e eu sentia meu rosto inchado.

“maldito jimmy! aquele rato! na próxima vez eu acabarei com ele... filho da puta.”

falei baixo, quase sussurrando, mas ainda sim eu sentia minha garganta arranhar.
engoli.
senti sangue.
estava bebendo sangue.
comecei, mentalmente, a procurar os lugares onde a dor era mais forte. queria ver se tinha quebrado alguma coisa. meu tornozelo estava me matando, mas acho que não o tinha quebrado. só deslocado ou só torcido. não importa. aquela porra doía.
meus braços também doíam, meu estomago estava retorcido, minha cabeça explodia e meu bafo era uma mistura de sangue, cigarros, uísque e vomito. estava com fome e com vontade de vomitar. lembrei-me de sandy me oferecendo um hambúrguer. droga! devia ter aceitado. mas naquela hora eu não sentia fome e não tinha a menor ideia de que jimmy estava me preparando uma emboscada. aquele filho da puta! foi muita covardia dele ter vindo com quatro pra cima de mim. jimmy era um puto covarde e quando eu for acabar com ele, não vou ser covarde. mano a mano. e vou deixar aquele rostinho fodido mais fodido ainda.

precisava mijar.
respirei fundo.
sentei.
apoiei-me na cadeira que tinha do lado da cama.
respirei fundo.
levantei.
comecei a tossir sangue.
cuspi.
apoiei na parede e fui pulando em um pé só.

“maldito tornozelo!”

cheguei ao banheiro.
olhei-me no espelho.
estava totalmente e completamente fodido.
sorri.
três dentes haviam sumido. 

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

bordel.

queria sair dali.
queria poder respirar algo que não fosse a fumaça dos cigarros.  ela olhava para mim e ria. ria de algo que eu não estava achando engraçado. ela podia ser bonita, talvez, com menos maquiagem e menos fumaça. 
olhei em volta, não reconheci.
olhei para o chão. olhei para a minha mão e notei um pequeno corte. eu não o sentia. 
olhei em volta, vi muitos rostos, muitos cigarros, muita bebida, muitos decotes e muitas carteiras vazias.
bordel.
é, agora sei onde estou, mas eu não sei aonde estou. tentei levantar, mas a mulher me segurou pelo braço e disse alguma coisa que não consegui entender por causa da música alta. puxei meu braço com mais força, mas ela não soltou. só olhou pra mim. séria. entendi o que ela tinha dito, dinheiro. claro, dinheiro. era mesmo um bordel no final das contas, não poderia esperar menos. coloquei minha mão no bolso, tirei minha carteira e a entreguei uma nota de cem e outras duas de cinquenta. ela pegou, contou, sorriu e me devolveu uma das notas de cinquenta. 
enquanto ela guardava o dinheiro no vasto decote, ela olhou para mim e falou algo que eu consegui ler no seus lábios vermelhos. 
"volte sempre."
ela saiu e eu observei o seu andar rebolativo.
coloquei o dinheiro no bolso e quando saia um menino, de uns quartoze anos, me entregou um casaco. vesti o casaco e dei pra ele a nota de cinquenta rejeitada pela mulher dos lábios vermelhos. 
ele sorriu.
abri a porta, o frio me acolheu. tudo estava branco e úmido. neve. andei mais dois passos e dei de cara com um pássaro. morto. congelado. o observei por mais um tempo e notei uma certa calma e passividade em seus pequenos olhos. como se estivesse tendo um sonho bom. coloquei as mãos nos bolsos e sai andando e pensando. abri a boca e sussurrei comigo mesmo.
"quero ter uma expressão como essa algum dia."