queria sair dali.
queria poder respirar algo que não fosse a fumaça dos cigarros. ela olhava para mim e ria. ria de algo que eu não estava achando engraçado. ela podia ser bonita, talvez, com menos maquiagem e menos fumaça.
olhei em volta, não reconheci.
olhei para o chão. olhei para a minha mão e notei um pequeno corte. eu não o sentia.
olhei em volta, vi muitos rostos, muitos cigarros, muita bebida, muitos decotes e muitas carteiras vazias.
bordel.
é, agora sei onde estou, mas eu não sei aonde estou. tentei levantar, mas a mulher me segurou pelo braço e disse alguma coisa que não consegui entender por causa da música alta. puxei meu braço com mais força, mas ela não soltou. só olhou pra mim. séria. entendi o que ela tinha dito, dinheiro. claro, dinheiro. era mesmo um bordel no final das contas, não poderia esperar menos. coloquei minha mão no bolso, tirei minha carteira e a entreguei uma nota de cem e outras duas de cinquenta. ela pegou, contou, sorriu e me devolveu uma das notas de cinquenta.
enquanto ela guardava o dinheiro no vasto decote, ela olhou para mim e falou algo que eu consegui ler no seus lábios vermelhos.
"volte sempre."
ela saiu e eu observei o seu andar rebolativo.
coloquei o dinheiro no bolso e quando saia um menino, de uns quartoze anos, me entregou um casaco. vesti o casaco e dei pra ele a nota de cinquenta rejeitada pela mulher dos lábios vermelhos.
ele sorriu.
abri a porta, o frio me acolheu. tudo estava branco e úmido. neve. andei mais dois passos e dei de cara com um pássaro. morto. congelado. o observei por mais um tempo e notei uma certa calma e passividade em seus pequenos olhos. como se estivesse tendo um sonho bom. coloquei as mãos nos bolsos e sai andando e pensando. abri a boca e sussurrei comigo mesmo.
"quero ter uma expressão como essa algum dia."
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