pauso a música, pois ouço um barulho estranho vindo lá de fora. meu coração bate, mas eu mantenho a calma. tenho que pensar racionalmente. levanto devagar e caminho suavemente a cozinha. meu cérebro pregando um peça. mais uma. abro a geladeira e pego a caixa de suco. eu o tomo na boca. sinto aquele plastico industrial nos lábios enquanto um suco acido e doce corre pela minha língua. limpo a boca com a manga da camiseta e apoio a testa no meu braço. sinto o suor nos meus pelinhos do braço e suspiro.
"merda."
não queria lembrar de nada. queria esquecer cada segundo naquele dia. foi uma sequencia tão cruel de passagens arrepiantes que senti pena. não valeu a pena a nunca haverá de valer a pena. pena. a pena. essa peninha tão preciso que escapa dos nossos dedos escorregadios e ambiciosos.
"merda."
queria afundar. mergulhar um mar de petróleo, morrer, afogada e corroída. aquela massa preta e flamejante que mata a vida ao redor dela. um doença. uma praga. algo que passa e destrói tudo oque passa. pistache. uma nuvem molhada e grudenta. negra. tão profundamente obscuro. não falei mais nada. não tinha mais nada a ser dito. nada mudaria oque aconteceu. tantas memorias. tantas duvidas. tantas indagações. minha visão embaralhou. apoiei na porta, mas cai. meu joelhos levaram o primeiro baque e tentei proteger meu rosto. não consegui. cai lentamente. senti como se o tempo tivesse parado. doeu.